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    ANÁLISE: 'Decreto sobre estrangeiros faz Milei se parecer com os ditadores Maduro e Ortega'

    10 hours ago

    Decreto sobre estrangeiros faz Milei se parecer com os ditadores Maduro e Daniel Ortega O presidente da Argentina, Javier Milei, assinou um decreto para barrar ou expulsar estrangeiros do país em caso de ataques contra argentinos. Mas apesar do anúncio, feito pelo Gabinete da Presidência nesta quarta-feira (29), a medida ainda precisa passar pela análise do Legislativo para passar a valer na prática. O Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) entra em vigor nesta sexta-feira (31), porém ainda tem que ser validado pela Comissão Bicameral Permanente do Parlamento. Caso isso ocorra, ele deve ser enviado, em um prazo de 10 dias úteis, para ser avaliado no plenário da Câmera e do Senado. Para o correspondente da GloboNews na Argentina, Ariel Palacios, a medida faz Milei se parecer com os ditadores da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Nicarágua, Daniel Ortega: "Com esta medida, Milei se parece ao ex-ditador Nicolás Maduro, que criou em 2017 a “Lei constitucional contra o ódio, a convivência pacífica e a tolerância”, que estabelecia a deportação de estrangeiros; medida similar na ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua desde 2020". A decisão de Milei ocorre em meio a uma grande percepção popular de que cresce uma onda anti-argentina. Na terça-feira (28), o jornal "Clarín" divulgou uma pesquisa que aponta que quase oito em cada dez argentinos acreditam que existe uma campanha contra o país; 69,1% afirmaram ainda que a suposta ofensiva seria orquestrada. Saiba mais sobre o decreto O Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) determina o impedimento da entrada no país ou a expulsão de estrangeiros que promovam ou incentivem mensagens de ódio, discriminação e violência contra argentinos em razão de sua nacionalidade. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (29) pelo Gabinete da Presidência argentina, que afirmou que a medida responde às "recentes manifestações de hostilidade" contra a Argentina. Segundo o comunicado oficial, o decreto inclui como motivo para barrar a entrada ou expulsar do país qualquer estrangeiro que incentive mensagens de ódio, discriminação ou violência contra cidadãos argentinos por sua nacionalidade, além de prever punições para atos considerados ofensivos aos símbolos nacionais. "Diante das recentes manifestações de hostilidade contra a República Argentina e os argentinos, o Governo Nacional reafirma que a defesa da Nação, de seus cidadãos e de seus símbolos não é negociável. Quem atacar a República Argentina não é bem-vindo em nosso país", declarou a Presidência. O presidente da Argentina, Javier Milei, na cerimônia de abertura da 138ª exposição anual da Sociedade Rural, em Buenos Aires. Mariana Nedelcu / Reuters Embora o governo argentino ainda não tenha divulgado os detalhes da regulamentação da medida, o comunicado oficial informa que o DNU passa a considerar motivo para impedimento de ingresso ou expulsão do território nacional os casos em que estrangeiros: promovam mensagens de ódio contra argentinos; incentivem discriminação contra cidadãos argentinos; defendam ou estimulem violência contra argentinos em razão de sua nacionalidade; pratiquem atos considerados ofensivos aos símbolos nacionais argentinos. A Presidência também afirmou que a proteção da nação, dos cidadãos argentinos e dos símbolos patrióticos será tratada como questão inegociável pelo governo. Agora no g1 Crise diplomática com o Brasil O anúncio ocorre poucos dias após uma escalada de tensão entre Buenos Aires e Brasília, desencadeada por declarações feitas por Milei durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), realizada no sábado (25), em São Paulo. Javier Milei discursa em SP durante a convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro Reuters/Jean Carniel No evento, o presidente argentino chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de "presidiário" e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como "lixo careca". As declarações provocaram forte reação do governo brasileiro e levaram o Itamaraty a convocar o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos. O governo brasileiro também chamou para consultas em Brasília o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, em um gesto diplomático que sinaliza descontentamento com a postura adotada pela Casa Rosada. Campanha anti-Argentina O novo decreto também é divulgado em um momento em que o governo Milei passou a sustentar publicamente a existência de uma suposta campanha internacional contra a Argentina. Na terça-feira (28), uma pesquisa divulgada pelo jornal argentino Clarín mostrou que quase oito em cada dez argentinos acreditam existir uma "campanha anti-Argentina". Segundo o levantamento, 69,1% dos entrevistados afirmaram acreditar que essa ofensiva é organizada. Entre as razões apontadas para a suposta campanha, 35,2% citaram inveja pelos resultados da seleção argentina de futebol, 24,1% atribuíram as críticas ao governo de Javier Milei e 11,2% apontaram acusações de racismo contra argentinos. Bandeira da Argentina Unplash A pesquisa foi divulgada apenas dois dias depois de Milei acusar os governos do Brasil e do México, além do Partido Democrata dos Estados Unidos, de financiarem uma ofensiva internacional contra a Argentina. Em entrevista a uma rádio argentina no domingo (26), o presidente afirmou, sem apresentar provas, que o Brasil teria financiado cerca de 25% dessa suposta campanha. "Quem investiu mais dinheiro nesta campanha anti-Argentina foi o Brasil", declarou. Embaixador brasileiro permanece em Brasília Em meio à crise, o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, reuniu-se nesta quarta-feira (29) com Lula e com o chanceler Mauro Vieira. Após o encontro, o governo decidiu mantê-lo em Brasília por tempo indeterminado enquanto acompanha a evolução da relação bilateral. Segundo integrantes do Itamaraty, uma definição sobre eventual retorno a Buenos Aires dependerá da avaliação diplomática dos próximos dias e dos desdobramentos da crise. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a dizer que a economia brasileira está melhor do que a Argentina e chamou Milei de "palhaço". Itamaraty convoca embaixador da Argentina no Brasil Embora diplomatas brasileiros tenham visto como mais conciliadoras declarações feitas nesta quarta-feira pelo chanceler argentino Pablo Quirno, que afirmou que Milei não pretende romper relações com o Brasil, interlocutores do governo brasileiro observam que ainda não há sinais de um pedido de desculpas por parte do presidente argentino. Enquanto isso, a embaixada brasileira em Buenos Aires permanece sob comando de um encarregado de negócios, o segundo posto na hierarquia diplomática. Reações do governo brasileiro Além de convocar o embaixador argentino em Brasília, o Itamaraty divulgou uma nota classificando as declarações de Milei como um episódio "sem precedentes" e "lamentável". O Ministério das Relações Exteriores afirmou que não há registro recente de um chefe de Estado estrangeiro que tenha ofendido, em território brasileiro, o presidente da República, integrantes do Poder Judiciário e o povo brasileiro. Em entrevista à TV Globo, o chanceler Mauro Vieira classificou as falas de Milei como "ríspidas, grosseiras e inaceitáveis" e disse que elas configuram interferência em assuntos internos do Brasil. Declaração de Milei é 'grave e inacietável', diz chanceler Mauro Vieira O presidente Lula também minimizou publicamente os ataques. Ao ser questionado por jornalistas sobre a crise, respondeu: quem é esse cara? Segundo auxiliares do presidente, o governo procura evitar uma escalada ainda maior do conflito diplomático. STF reagiu às declarações Horas após o discurso de Milei em São Paulo, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, divulgou nota de repúdio. Fachin afirmou que a referência feita por Milei a Alexandre de Moraes representou uma manifestação desrespeitosa contra um integrante da mais alta Corte do país por ato jurisdicional praticado de acordo com a Constituição brasileira. O ministro também declarou que o tribunal deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve reger as relações entre Estados soberanos.
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