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    Ave exclusiva da Serra de Baturité é reconhecida como nova espécie brasileira

    8 hours ago

    Ave exclusiva da Serra de Baturité é reconhecida como nova espécie brasileira Uma ave discreta, de hábitos terrestres e encontrada apenas em uma pequena área de floresta na Serra de Baturité, no Ceará, acaba de ganhar um novo nome e uma nova identidade científica. Pesquisadores descreveram formalmente a tovaca-de-baturité (Chamaeza baturitensis sp. nov.), até então considerada uma população da tovaca-campainha (Chamaeza campanisona). 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A descrição foi publicada na revista Zoologia, em estudo assinado pelos pesquisadores Lucas Romero, Enrico L. Breviglieri e Vagner Cavarzere, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O trabalho analisou 183 gravações de vocalizações, além de exemplares de museus, para comparar as diferentes populações de Chamaeza ao longo da Mata Atlântica. As análises revelaram que as aves da Serra de Baturité apresentam um padrão de canto próprio e características distintas na plumagem, como a ausência da mancha preta na testa. A combinação dessas características levou os pesquisadores a reconhecer a população como uma espécie independente. Para Vagner Cavarzere, um dos autores do artigo, porém, a diferença não era uma surpresa completa. A população cearense já havia chamado a atenção de pesquisadores décadas atrás. “Já sabíamos que os indivíduos cearenses eram morfologicamente diferentes, pois isso havia sido alertado por Edwin Willis em publicação de 1992”. O que faltava, segundo ele, era uma investigação que comparasse sistematicamente a espécie em toda a sua distribuição na Mata Atlântica, especialmente as vocalizações. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: AVISO: Plantas ornamentais podem representar risco para cães e gatos; entenda VÍDEO: Bando de tatus é flagrado 'correndo' e cavando o solo no Pantanal ALERTA: Super El Niño pode aumentar o risco de doenças transmitidas por animais; entenda a relação A tovaca-de-baturité é encontrada exclusivamente na Serra de Baturité, no Ceará Fábio Nunes Uma espécie que passou décadas “escondida” dentro de outra A tovaca-campainha é uma ave de aproximadamente 20 centímetros, que vive no chão das florestas e procura alimento principalmente na serrapilheira e entre troncos caídos. A espécie apresenta pernas longas, cauda de comprimento intermediário e plumagem predominantemente marrom-olivácea. Com ampla distribuição pela América do Sul, Chamaeza campanisona também ocorria na Serra de Baturité, onde a população era tratada como parte da espécie. Foi justamente essa população que passou a levantar dúvidas entre pesquisadores e observadores de aves. O biólogo Marco Aurelio Crozariol, pesquisador do Museu de História Natural do Ceará, conta que a suspeita estava relacionada principalmente a duas características: a aparência e o canto. “Já há alguns anos a gente tinha a noção de que provavelmente a população do Ceará era uma espécie nova, porque ela tem uma diferença na coloração, principalmente na testa”. Segundo ele, enquanto outras populações apresentam a testa escura, a ave de Baturité tem essa região em tom marrom. O canto também se diferencia. “Então, através das pesquisas eles comprovaram que existe essa diferença e as características tanto da plumagem quanto da vocalização são únicas daqui da Serra de Baturité”, explica. O canto que ajudou a revelar a espécie No estudo, os autores analisaram 183 gravações, provenientes de plataformas como WikiAves e Xeno-canto e de coleções especializadas. A partir delas, foram analisadas centenas de vocalizações e diferentes características acústicas, como frequência, duração, número de notas e ritmo do canto. Os resultados revelaram três grupos vocais principais entre as populações atlânticas: um grupo formado pelas populações do Sul e da Bahia, uma população diferenciada em Alagoas e outra, ainda mais distinta, no Ceará. O canto das aves de Baturité apresentou características marcantes. É o mais longo entre os grupos analisados, com cerca de 13 segundos de duração total, e também possui o ritmo mais acelerado na primeira parte, com aproximadamente 10,1 notas por segundo. A diferença não está apenas na percepção de quem ouve. As análises estatísticas conseguiram separar a população cearense das demais. Para Vagner, isso é particularmente importante porque as aves do grupo ao qual a tovaca pertence, os suboscines, possuem vocalizações geneticamente determinadas. “Os indivíduos possuem a vocalização inata, ou seja, determinada geneticamente. Deste modo, não aprendem ou incorporam vocalizações ao longo da vida”, explica. É diferente, por exemplo, de aves canoras que precisam ouvir indivíduos adultos para desenvolver o próprio canto. No caso dos suboscines, a vocalização pode funcionar como uma importante forma de reconhecimento entre indivíduos da mesma espécie. Aparência também conta Os pesquisadores examinaram 134 espécimes, além de fotografias de exemplares depositados em coleções nacionais e internacionais. A comparação revelou diferenças sutis, mas consistentes, na plumagem. A principal delas está na testa. Nas populações de C. campanisona, existe uma mancha preta imediatamente acima do bico, associada a uma região dos loros, área localizada entre o bico e os olhos, de coloração amarelada. Nos exemplares do Ceará examinados pelos pesquisadores, essa mancha preta está ausente e os loros apresentam coloração semelhante à da coroa. A garganta e o peito também apresentam uma diferença: nos exemplares de Baturité, a coloração é mais amarelada ou amarronzada, enquanto nas populações do sul e da Bahia tende a ser esbranquiçada. Essas características foram incorporadas à descrição formal da nova espécie. O artigo destaca que a ausência da mancha preta na fronte é o caráter morfológico mais consistente para diferenciá-la de C. campanisona. Inteligência artificial ajudou a confirmar a diferença Além das análises tradicionais, o estudo incorporou uma ferramenta de inteligência artificial. Os pesquisadores utilizaram o BirdNET, uma rede neural profunda desenvolvida para classificação de sons de aves. O sistema transforma as gravações em características acústicas e permite comparar matematicamente os diferentes padrões de vocalização. Na etapa de classificação supervisionada, o modelo apresentou 92% de acurácia para os cantos e 90% para os trechos finais das vocalizações. A população do Ceará formou um agrupamento claramente separado das demais. Vagner explica que a tecnologia foi incorporada à pesquisa pelo então aluno de mestrado Enrico L. Breviglieri. “A IA foi importante para corroborar objetivamente a desconfiança que já tínhamos percebido somente ouvindo as vocalizações, e que as análises tradicionais já haviam demonstrado”. Uma ave exclusiva da Serra de Baturité O nome escolhido faz referência justamente ao local onde a espécie vive. Baturitensis significa “de Baturité”. A tovaca-de-baturité é conhecida apenas da Serra de Baturité, um conjunto de florestas montanas úmidas, os chamados brejos de altitude, cercado pela Caatinga, nos municípios de Guaramiranga e Pacoti, no Ceará. A distribuição extremamente restrita aumenta a importância da conservação do ambiente onde a ave vive. Para Fábio Nunes, biólogo e pesquisador da ONG Aquasis, que atua na região, o reconhecimento taxonômico representa uma mudança importante. “Enquanto a população era tratada apenas como parte de uma espécie de distribuição muito mais ampla, sua situação particular e extremamente restrita acabava tendo menos visibilidade nas prioridades de conservação”, explica. Segundo ele, a situação já era considerada preocupante antes mesmo da descrição formal. Em 2022, a população foi reconhecida como Criticamente em Perigo (CR) na Lista Vermelha da Fauna do Ceará, embora ainda fosse tratada taxonomicamente como Chamaeza campanisona. Agora, com a validação como espécie independente, a preocupação ganha uma nova dimensão. Uma ave que depende de floresta madura A tovaca-de-baturité é uma espécie terrestre e insetívora, associada a áreas de floresta mais maduras, úmidas, sombrias e bem conservadas, segundo Fábio. Esse modo de vida torna a ave especialmente vulnerável à fragmentação florestal. “A perda de cobertura florestal não significa apenas perder uma parte do ambiente. Para uma espécie tão especializada, a abertura da floresta pode transformar completamente o habitat que ela necessita para sobreviver”, explica. O canto da tovaca-de-baturité é mais longo e acelerado que o das populações de Chamaeza campanisona Fábio Nunes Marco Aurelio Crozariol também chama atenção para a sensibilidade da espécie à entrada de luz na floresta. De acordo com ele, os pesquisadores têm encontrado a ave em apenas duas localidades da Serra de Baturité, uma delas dentro de uma unidade de conservação e outra em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). “É um bicho que hoje a gente ainda sabe muito pouco, mas a gente sabe mais ou menos aonde ela ocorre, que as populações devem ser muito pequenas”, afirma. Com base nos registros conhecidos, Crozariol estima que a população possa ser de menos de 100 indivíduos, mas ressalta que ainda são necessários estudos para confirmar esse número. Muito ainda precisa ser descoberto A descrição da espécie não encerra a pesquisa. Pelo contrário: abre uma série de novas perguntas. É preciso descobrir, por exemplo, quantos indivíduos existem, qual é a extensão real da distribuição, como a população está estruturada e quais são as condições necessárias para sua sobrevivência. Vagner destaca que os próximos estudos precisam avaliar fatores utilizados para determinar o grau de ameaça de uma espécie, como tamanho populacional, área de ocorrência, redução do habitat e outros riscos. “Ela já é naturalmente difícil de observar, mas está se tornando cada vez mais rara mesmo para observadores experientes e moradores locais conhecedores dessa espécie”, alerta Fábio Nunes. Entre as ameaças, ele aponta principalmente a perda de qualidade e de extensão do habitat, além dos efeitos que podem ser agravados por períodos de seca mais intensos. Por ser uma ave que vive próxima ao solo, animais domésticos, como gatos, também representam uma ameaça. Museus guardam pistas para os próximos estudos O Museu de História Natural do Ceará também possui um acervo que pode ajudar a responder parte dessas perguntas. Crozariol conta que a instituição guarda material de seis exemplares da população. Dois deles possuem espécimes preservados e também conteúdo estomacal armazenado, que poderá ser utilizado para investigar a alimentação da espécie. Outros quatro exemplares possuem material genético. Em três deles também foram preservadas amostras de ectoparasitas, como piolhos, ácaros e carrapatos. “Então, nós temos várias amostras aqui no museu que vão nos ajudar agora a conhecer um pouco mais sobre essa espécie na natureza”, explica. A instituição também trabalha em parceria com pesquisadores da Aquasis utilizando gravadores autônomos, instalados na mata para registrar as vocalizações das aves. A técnica permite identificar posteriormente quais espécies estão presentes em diferentes pontos da floresta e pode ajudar a localizar novas populações da tovaca-de-baturité. Uma espécie nova pode ajudar a proteger a própria floresta Para Fábio, o reconhecimento científico da ave coloca a Serra de Baturité ainda mais no centro das discussões sobre conservação. “Nós já sabíamos que ela possui um histórico evolutivo complexo que moldou biodiversidade única de animais e plantas e, para as aves, esta diversidade agora é evidente por possuir uma espécie que não é encontrada em nenhum outro lugar do planeta”. Ele ressalta que outras populações de aves da região, embora comuns em outras áreas, também ocorrem de forma restrita em Baturité e podem merecer futuras revisões taxonômicas. Ou seja: a tovaca-de-baturité pode ser apenas uma das espécies exclusivas escondidas nas florestas da serra. A descoberta também pode fortalecer o turismo de observação de aves. Espécies raras e de distribuição restrita costumam atrair observadores interessados em conhecer animais que não podem ser encontrados em outras partes do mundo. Hotéis, restaurantes e guias locais podem ser beneficiados, desde que a atividade seja conduzida de maneira responsável. Pesquisadores fazem alerta aos observadores de aves Fábio faz um apelo para que observadores evitem procurar a tovaca-de-baturité de maneira insistente nas áreas conhecidas de ocorrência, especialmente utilizando playback, técnica que reproduz a vocalização da própria espécie para tentar atraí-la. “Quando temos uma população muito pequena e restrita, qualquer alteração desnecessária no comportamento dos indivíduos pode representar um impacto adicional”, explica. Ao mesmo tempo, os observadores podem contribuir com a ciência realizando buscas responsáveis em áreas onde ainda não existem registros. Caso encontrem a espécie, gravações feitas com o próprio celular e informações precisas sobre o local podem ajudar os pesquisadores a ampliar o conhecimento sobre sua distribuição. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
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