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    Com câncer raro, paciente tem acesso a remédio em teste negado e entra em corrida contra o tempo

    há 9 horas

    Ziara tem melanoma uveal, câncer raro no olho, que está em metástase pelo corpo Arquivo pessoal Durante anos, Ziara Abud foi uma advogada bem sucedida com o sonho de se aposentar cedo para viver a vida que sempre quis: viajar, mergulhar com tubarões e saltar de paraquedas, esporte em que competiu pelo país e acumulou recordes. Em 2013, vendeu para uma multinacional americana a empresa que fundou e se aposentou antes dos 50 anos, para se dedicar ao que mais gostava. Foi em uma das sonhadas viagens, para mergulhar na Indonésia, que a visão de um dos olhos começou a embaçar. Em janeiro de 2020, veio o diagnóstico: melanoma uveal, um câncer que nasce dentro do olho e atinge cerca de 5 pessoas a cada milhão. Mesmo dentro dessa doença rara, Ziara está em um grupo sem tratamento específico aprovado no país. Seis anos, várias cirurgias e sucessivas linhas de tratamento depois, o tumor chegou ao fígado, aos pulmões, ao cérebro, aos ossos e a uma região próxima ao coração. O prognóstico é difícil, mas ela não pensa em desistir. “Eu amo viver, eu quero continuar vivendo. Eu tenho só 59 anos, sabe? Ainda tem muita vida”, conta. Quando Ziara esteve em grupo que bateu recorde em salto na Tailândia Arquivo Pessoal A aposta dela e de seu oncologista é o darovasertib, uma terapia-alvo em comprimido que, combinada ao crizotinibe, remédio já usado contra outros tipos de câncer, tem mostrado resultados promissores contra esse tumor. A combinação, porém, ainda está em estudo. Para ter acesso a ela, Ziara recorreu ao uso compassivo. Uso compassivo é o mecanismo que permite que uma empresa forneça, gratuitamente, um medicamento ainda em teste a um paciente que já esgotou as alternativas tradicionais. A decisão cabe ao laboratório, e o paciente assume os riscos de uma droga cuja pesquisa não foi concluída. O recurso ganhou visibilidade recentemente com o caso do influenciador Lito Sousa, que, depois de uma série de recusas, conseguiu acesso a um tratamento experimental contra a doença de Creutzfeldt-Jakob, rara e sem cura. No caso de Ziara, a resposta da empresa foi não. E o que pode levar as empresas a não compartilharem suas drogas? Especialistas ouvidos pelo g1 apontam um conjunto de razões: Ziara não se encaixa nos critérios do estudo clínico, a combinação ainda precisa provar que prolonga a vida e como se comporta nos pacientes e há também a questão financeira para a empresa. Ziara e o marido em mergulho Arquivo Pessoal Um câncer raro que escapa dos remédios do melanoma de pele Ziara Abud levava a vida que sonhou, saltando de paraquedas. Durante a viagem à Indonésia, no fim de 2019, percebeu que a visão periférica de um dos olhos estava embaçada. Míope desde criança e com consulta ao oftalmologista feita em fevereiro daquele ano, achou que fosse catarata e deixou para investigar depois das festas. O quadro piorou rápido e em uma consulta em 1° de janeiro de 2020, perto do mundo conhecer uma das piores crises de saúde da história, o mundo dela também ruía. Ouviu do médico que havia um tumor dentro do olho. O melanoma é mais conhecido como câncer de pele, mas as células que o originam, os melanócitos, responsáveis pela pigmentação, também estão na úvea, uma das camadas internas do olho. Quando sofrem mutações, passam a crescer sem controle e podem se espalhar pelo corpo. Ziara em escalada antes do câncer Arquivo Pessoal A doença é rara. Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, atinge cerca de 5 pessoas a cada milhão e responde por 3% a 5% dos melanomas. No Brasil, um levantamento da Fundação do Câncer identificou 993 casos de câncer nos olhos registrados entre 1990 e 2021. Só 18% deles do tipo uveal. No caso de Ziara, o tumor já estava grande, havia provocado glaucoma e comprometido a visão. Em pouco tempo, ela teve que tira-lo e perder o olho. A cirurgia e a braquiterapia, em que uma placa radioativa fica em contato com o tumor por alguns dias, são os tratamentos usados quando a doença é descoberta cedo. Mesmo assim, até metade dos pacientes volta a ter o câncer, quase sempre no fígado, segundo o oncologista Rodrigo Munhoz, que cuida de Ziara. E foi isso o que ocorreu com ela. Depois de um ano e meio sem sinais da doença, surgiram metástases no fígado e no peritônio, membrana que reveste o abdômen. A partir daí, as opções se estreitaram. “Chegou um momento que os tumores estavam grandes de novo, apertando o meu estômago, que eu não conseguia comer. Eu sinto dores insuportáveis nos ossos por causa do câncer”, conta Ziara. O melanoma uveal tem uma biologia diferente da do melanoma de pele. Em até metade dos casos na pele, existe uma mutação no gene BRAF que funciona como uma fechadura para a qual já há chave: remédios desenhados para atacá-la. No olho, essa alteração não aparece. O cenário começou a mudar com o tebentafusp, aprovado no Brasil em 2025. O remédio funciona como um anzol de duas pontas: uma se prende a um alvo nas células do tumor e a outra atrai as células de defesa do organismo para atacá-lo. Nos estudos, o medicamento conseguiu prolongar a vida dos pacientes com a doença. O alvo, porém, só fica exposto quando o paciente tem um tipo específico de HLA, conjunto de moléculas do sistema imunológico que varia de pessoa para pessoa, como uma tipagem sanguínea. No Brasil, apenas 20% a 30% da população tem essa versão. Ziara não tem e, por isso, não pode usar o medicamento. Sem essa opção, Ziara passou por quimioterapia aplicada direto no fígado e por cirurgias para retirar os tumores do peritônio, que voltaram em poucos meses. Vieram então imunoterapias, uma delas com boa resposta inicial, além de quimioterapia e terapias-alvo. Segundo Munhoz, a paciente respondeu bem a várias dessas linhas de tratamento, mas a doença foi mudando. "A gente vem conseguindo controlar esse tumor há bastante tempo, mas naturalmente depois de tanto tempo o tumor foi adquirindo resistência e a gente precisa de outras ferramentas", afirma. Como é tentar um medicamento em estudo? Recentemente, o caso do influenciador Lito Sousa chamou atenção para esse percurso. Diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, rara e sem cura, ele tentou acesso a tratamentos experimentais nos Estados Unidos. Teve negada a inclusão para receber as drogas em dois estudos. O remédio que ele acabou recebendo só tinha sido testado em animais. Lito e Ziara não são exceção. A Organização Europeia de Doenças Raras (Eurordis) estima que mais de 300 milhões de pessoas vivem com alguma doença rara no mundo. Como cada uma atinge poucas pessoas, essas doenças recebem menos pesquisa e menos investimento, e muitas seguem sem tratamento. Quando surge uma droga promissora, o caminho até ela costuma passar por uma vaga em um estudo clínico ou pelo uso compassivo, quando a empresa permite. Os dois caminhos são estreitos. Antes de um estudo começar, os pesquisadores definem, e as agências reguladoras aprovam, um protocolo com o número exato de participantes, os grupos em que serão divididos e os critérios que cada um precisa cumprir, como o estágio da doença e os tratamentos já recebidos. Nem todos os participantes recebem a droga nova. Em muitos estudos, parte dos voluntários forma o grupo de comparação, que recebe outro tratamento ou nenhum. Sem esse grupo, não seria possível saber se o resultado vem do remédio ou de outros fatores. Ziara não podia mais fazer parte do estudo clínico porque ele já tinha começado. O que ela tentava agora era o uso compassivo da droga. O nome vem de compaixão, quando a empresa entrega por doação a um paciente sem expectativas de tratamento e que assume que sabe dos riscos, já que a substância ainda está em teste. O pedido foi feito pelo médico, Munhoz, em agosto de 2026. O médico explicou o caso dela, que ela não se enquadra no tratamento disponível e que essa é uma das boas opções que ela pode ter diante do cenário. A resposta foi uma negativa sem explicar o porquê não poderia fazer o acesso. “É uma tristeza sem tamanho, sabe? É estar tão perto, saber que tem uma droga sendo estudada, que tem resultados promissores e que pode me dar mais um pouco de vida e não poder ter acesso. É uma mistura de raiva, tristeza… Não dá para entender por que eles não podem fazer isso”, conta. Paciente luta por uso compassivo de medicação em teste em busca de mias tempo de vida na luta por câncer raro Arquivo Pessoal O g1 acionou a IDEAYA Biosciences, responsável pelo desenvolvimento do darovasertibe, a empresa disse que o medicamento ainda é experimental e que ainda não foi aprovado pela FDA dos EUA ou por qualquer outra agência reguladora global. Disse que vem trabalhando para que ele chegue o quanto antes aos pacientes, mas não deu um prazo. Sobre o motivo de não fornecer à Ziara o uso compassivo, a empresa não comentou. Para o oncologista Stephen Stefani, especialista em avaliação de tecnologias em saúde, o acesso a esse tipo de substâncias em teste dependem de uma série de fatores que pesam na decisão: Os dados ainda são imaturos. Os resultados disponíveis são intermediários, e a toxicidade é alta: quase todos os pacientes do estudo tiveram efeitos colaterais. É adiantar um passo no desenvolvimento da pesquisa. As etapas da pesquisa não servem para atrasar o acesso, e sim para garantir que o tratamento é seguro e traz benefício. Mas ele explica que é também uma decisão com peso econômico. Se a droga fosse simples e barata, diz, seria legítimo discutir o acesso, mesmo com alta toxicidade, desde que os riscos e benefícios estivessem claros para o paciente e sua equipe. “A questão é que não é um desenvolvimento simples, é caro. A Ideaya é uma companhia pequena. E liberar o remédio antes da aprovação significa arcar sozinha com o custo. Então, para além de levar em conta toda a questão do processo científico, há também a questão financeira”, explica. Ziara não desistiu de tentar. Mesmo com a negativa, ela segue tentando outras esferas da empresa em busca de respostas. Infelizmente, para o tipo de câncer que ela tem, diferente do caso de Lito, não há outras drogas em estudo que possam ser usadas. A outra alternativa é esperar que o estudo seja concluído e a droga chegue ao mercado, mas ela não sabe se tem esse tempo. “Eu não tenho garantia se tenho até o próximo mês, o ano que vem.. não tenho como esperar tudo isso”. O estudo já está em fase 3, a última antes do pedido de aprovação. Porém, não significa que a droga esteja perto do paciente. A FDA concedeu ao darovasertib uma designação que acelera a análise, mas não há prazo definido, e no Brasil a empresa ainda não pediu registro à Anvisa. Depois da aprovação, vêm a etapa comercial e a discussão sobre o preço. O tratamento hoje disponível, mas que não se enquadra no caso dela, pode chegar a R$ 1 milhão. “Vivemos com pacientes que enfrentam esses desafios todos os dias. Nós, médicos, sempre vamos tentar o que está ao nosso alcance. É frustrante parecer tão perto e não poder ter acesso. Mas é preciso lembrar que a ciência não tem rito perfeito, mas ainda assim é o melhor rito que existe”, explica Stefani.
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