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    Paleontólogo fala sobre descobertas raras em terreno no interior de SP e vontade de voltar com escavações

    16 hours ago

    Confira como está o sítio paleontológico em Presidente Prudente O Sítio Paleontológico Professor Pepe, localizado no Parque dos Girassóis, em Presidente Prudente (SP), está há três anos sem as escavações conduzidas pelo paleontólogo e professor William Roberto Nava, responsável pelos trabalhos de campo no local desde 2004. O local reúne fósseis de diferentes espécies que viveram há entre 80 milhões e 70 milhões de anos. As escavações foram interrompidas em agosto de 2023, após uma denúncia sobre possíveis irregularidades relacionadas à extração dos fósseis. O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), mas a investigação foi arquivada em 2024 sem que fossem constatadas irregularidades. Entenda o processo nesta reportagem. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp A Prefeitura de Presidente Prudente, por outro lado, informou ao g1 que o espaço continua sendo utilizado para atividades de pesquisa e que alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) realizam escavações no sítio. Os trabalhos de campo do paleontólogo no local começaram há mais de 20 anos. No entanto, desde o processo, Nava não retomou os trabalhos no local e afirma que falta incentivo do município para a continuidade das pesquisas. O g1 esteve no local na última semana e identificou que a área está cercada e possui placas de sinalização que indicam a proibição de jogar lixo. Apesar disso, havia resíduos e vegetação acumulados ao longo do gradil. Sítio paleontológico que revelou fósseis raros está há 3 anos sem novas escavações em Presidente Prudente (SP) Beatriz Jarins/g1 Uma segunda placa, menor, também identifica o espaço como Sítio Paleontológico Professor Pepe e informa que o local faz parte do patrimônio cultural protegido por: Decreto-Lei nº 4.146/1942, da Presidência da República; Lei nº 10.267/2020, da Prefeitura de Presidente Prudente; Decreto nº 30.661/2020, da Prefeitura de Presidente Prudente. Cronograma técnico de alunos Em nota, a Prefeitura de Presidente informou ao g1 que as escavações no sítio paleontológico seguem um cronograma técnico definido e orientado pelos pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente. A administração municipal disse ainda que acompanha esse planejamento e, sempre que comunicada, atende às demandas necessárias à realização das atividades de campo. "O município assinou prontamente o convênio após sua elaboração, cuja conclusão ocorreu posteriormente com a assinatura pela Universidade. Mesmo antes da formalização, a prefeitura já adotava as providências de preservação do sítio e colaborava com as atividades de pesquisa", afirma o comunicado. Por fim, a administração disse que o local é permanentemente limpo pela prefeitura, permanece cercado por alambrado e possui placas de identificação e orientação, medidas destinadas a prevenir descarte irregular de resíduos, depredações e acesso inadequado. LEIA TAMBÉM: FOTOS: mais de 400 amostras de fósseis de dinossauros, moluscos e mamíferos são achadas no interior de SP Fósseis de tartaruga de 80 milhões de anos são achados em sítio paleontológico de Pirapozinho Interior de SP foi 'berçário' de crocodilomorfos entre 90 e 70 milhões de anos atrás, aponta estudo Interrupção das escavações O professor William Nava continuou as escavações no local até agosto de 2023, quando ocorreu uma denúncia sobre possíveis irregularidades relacionadas à extração dos fósseis. O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF). Segundo o órgão, a investigação foi arquivada em 2024 e não foram constatadas irregularidades durante as apurações. Em nota ao g1, o MPF informou que os pesquisadores estrangeiros envolvidos na extração dos fósseis possuíam as devidas autorizações concedidas pela Agência Nacional de Mineração (ANM). O órgão também informou que o material fóssil coletado foi destinado ao Museu de Paleontologia de Marília e que não foram encontrados indícios de desvio ou comercialização ilegal dos itens. Sítio paleontológico que revelou fósseis raros está há 3 anos sem novas escavações em Presidente Prudente (SP) Beatriz Jarins/g1 Ainda conforme o MPF, foram adotadas medidas de preservação do Sítio Paleontológico em Presidente Prudente, como o tombamento do local por meio do Decreto Municipal nº 30.661/2020 e o cercamento de toda a área para evitar depredações. “Desde setembro de 2024, o MPF mantém em tramitação um procedimento administrativo para acompanhar a efetiva adoção das providências de proteção ao patrimônio cultural relacionado ao sítio paleontológico”, completou a nota. Segundo William Nava, no entanto, as escavações foram interrompidas no início das investigações e não foram retomadas posteriormente por "certa falta de incentivo". Para o pesquisador, a interrupção representa também a ausência de novos registros e coletas de campo que poderiam contribuir para a pesquisa científica. “Nossas descobertas ao longo de todos esses anos nesse sítio paleontológico de Prudente colocaram a cidade em destaque mundial e muito têm contribuído para a ampliação do conhecimento científico na área da paleontologia”, reforça o professor. Equipe de escavações e Prudente ao fundo 2017 William Nava/Arquivo pessoal Descoberta Ao g1, o paleontólogo, que também é responsável pelo Museu de Paleontologia de Marília, relembrou como descobriu o sítio paleontológico. Ele esteve em Presidente Prudente em setembro de 2004 para verificar outra ocorrência de fóssil: a de um dinossauro saurópode, descoberto em 2000 e batizado, em 2013, como Brasilotitan nemophagus. “Tive minha atenção despertada para uma colina nas proximidades, que, ao me aproximar, vislumbrei um terreno baldio com mato, junto a um conjunto de predinhos, o CDHU, algum lixo e, num dos lados, na Av. Odinir Marangoni, estavam rochas aflorando”, relembra. Ao verificar o local, o pesquisador encontrou pequenos “ossinhos” distribuídos na matriz rochosa, que, segundo ele, eram “bastante interessantes”. A partir de então, levou blocos de rocha para Marília para aprofundar as pesquisas. Em novembro e dezembro de 2004, William Nava continuou as expedições no local. Em janeiro de 2005, fez uma nova descoberta. “Consultando a bibliografia científica, identifiquei que os pequenos ossos pertenciam a um grupo extinto de aves do tempo dos dinossauros, conhecidos como ‘enantiornithes’”. Equipe de pesquisadores que descobriu a terceira ninhada de ovos, em maio 2022 William Nava/Arquivo pessoal A partir daquele momento, o pesquisador continuou trabalhando no então terreno baldio, com escavações e coletas dos pequenos fósseis encontrados no local. “Concentrei minhas energias nesse local, e assim foi até 2017, quando passei a contar, esporadicamente, com colegas pesquisadores de outras instituições que auxiliavam também as escavações em busca de mais materiais fósseis, que pudessem ser submetidos a estudos.” Segundo o paleontólogo, os ossos das aves encontradas em Presidente Prudente correspondiam ao primeiro registro desse grupo no Brasil, motivo pelo qual são considerados raros. Além disso, os fósseis das aves enantiornithes estavam bem preservados. O material foi analisado e estudado, resultando nos primeiros artigos científicos sobre aves fósseis descritas para o período Cretáceo do Brasil. “O grau de conservação dos fósseis provenientes do sítio Pepe de Prudente permitiu aos cientistas e paleontólogos novos vislumbres e interpretações sobre a fauna de vertebrados que habitou o que hoje conhecemos como Oeste Paulista, há cerca de 80 a 70 milhões de anos, brindando a paleontologia brasileira com novos conhecimentos e enfatizando sua importância.” O paleontólogo William Nava (à esq), mostrando a rocha com fósseis ao então prefeito Ed Tomas, em 2022 Willian Nava/Arquivo pessoal Principais achados Entre os principais achados feitos no Sítio Paleontológico Professor Pepe estão fósseis de aves, lagartos, crocodilomorfos, serpentes, peixes e dinossauros. “Ao mesmo tempo que surgiam os ossinhos das aves, nas escavações apareciam também fósseis de outros animais, como dentes de dinossauros carnívoros, dentes de crocodilomorfos, coprólitos (excrementos fossilizados), escamas de peixes e outros fósseis”, relembra. Em 2018, durante um trabalho de laboratório no Museu de Paleontologia de Marília, William Nava afirma ter identificado um esqueleto de ave encontrado no sítio de Presidente Prudente que também apresentava o crânio. A descoberta resultou na publicação de um estudo em uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo. O material recebeu o nome de Navaornis hestiae, em referência ao sobrenome do pesquisador. “Foi o primeiro registro de uma ave fóssil no Brasil a apresentar o crânio preservado em 3D (aliás, é o primeiro esqueleto de ave com crânio do Brasil, não tem em nenhum outro lugar) e recebeu o nome de Navaornis hestiae, na revista Nature, 2024, uma singela homenagem que os autores do artigo fizeram, e que me deixou bastante feliz.” William Nava durante escavações em busca de fósseis de aves em Presidente Prudente, em 2008 William Nava/Arquivo pessoal Ovos de crocodilomorfos Em 2020 e 2021, durante a pandemia, William Nava trabalhou no local acompanhado da geóloga prudentina Giovanna Paixão. A dupla descobriu as primeiras ninhadas de ovos fossilizados de crocodilomorfos da região de Presidente Prudente. O estudo sobre o material foi publicado neste ano. Segundo Nava, foram encontrados cerca de 83 ovos agrupados em três ninhadas, além de ovos isolados. “Os estudos revelaram se tratar da maior ninhada de ovos de crocodilomorfos do mundo, reunindo cerca de 83 ovos agrupados em três ninhadas, fora os ovos isolados que encontramos, revelando que essa área do sítio Prof. Pepe poderia ter sido, entre 80 e 70 milhões de anos atrás, um local de nidificação desses répteis.” Segundo o professor, outros ovos, que apresentam morfologias diferentes, estão sendo estudados na Universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul, com a participação de Giovanna, que também é estagiária do Museu de Paleontologia de Marília. O trabalho realizado no Sítio Paleontológico Professor Pepe também contou com a parceria de pesquisadores de outras instituições, entre eles o professor Rodrigo M. Santucci, da Universidade de Brasília; o professor Luis Chiappe, do Museu de História Natural de Los Angeles, nos Estados Unidos; e o professor Agustin Martinelli, do Museu Argentino de Ciências Naturais de Buenos Aires, na Argentina. “Eles foram super importantes no estudo e análise dos fósseis, especialmente das aves", afirma o professor William Nava. Pesquisadores escavam as rochas em busca de ossos de aves da época dos dinossauros em 2019 William Nava/Arquivo pessoal Serpente pré-histórica Em outro trabalho de campo, realizado em 2020, os pesquisadores encontraram o fóssil de uma serpente, que foi levado ao laboratório do Museu de Paleontologia de Marília para estudo. Conforme o pesquisador, a análise revelou um esqueleto quase completo, incluindo o crânio. O material foi considerado o primeiro crânio de serpente fóssil encontrado no Brasil. O estudo sobre o animal foi publicado na revista Nature em julho de 2026. A espécie foi batizada de Tametara mirim. “Da mais bem preservada serpente da era dos dinossauros do nosso país, num estudo publicado também na Revista Nature em julho de 2026, a serpente Tametara mirim.” Para William Nava, os achados ajudam a ampliar o conhecimento sobre a fauna que viveu na região Oeste Paulista durante o período Cretáceo. “Por esses e outros achados, hoje o Sítio Paleontológico Prof. Pepe é visto como uma ‘janela para o passado’, revelando sua riqueza paleontológica para o Brasil e o mundo, graças às nossas escavações, nossos esforços e nossa dedicação.” Todos os fósseis coletados no terreno do Parque dos Girassóis foram destinados ao Museu de Paleontologia de Marília. O museu fica na Avenida Sampaio Vidal, 245, esquina com a Avenida Rio Branco, no Centro de Marília. A entrada é gratuita e há atrações guiadas. O espaço funciona às segundas-feiras e aos sábados, das 13h às 17h, e de terça a sexta-feira, das 9h às 17h. 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