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    SP cortada ao meio: ilustrações revelam o que existe sob ícones da capital, com rios invisíveis, galerias, criptas e metrô

    10 hours ago

    Masp Arquiteto e ilustrador Jardi Oliveira/Arquivo pessoal Quem passa pela Avenida Paulista vê o vão livre do Masp, o trânsito intenso e o fluxo constante de pedestres, mas debaixo da terra — literalmente — existe uma cidade que ninguém consegue enxergar a olho nu. Galerias subterrâneas do museu, túneis do metrô, lençóis freáticos e o Túnel 9 de Julho fazem parte desse mundo recortado, ao qual só se tem acesso por meio da arte, do estudo e da criatividade. E é justamente essa cidade invisível que o arquiteto e ilustrador Jardi Oliveira decidiu revelar em uma série de aquarelas que combinam arquitetura, história e engenharia por meio de cortes técnicos da paisagem. Nas ilustrações, a terra parece ser "aberta" ao meio para mostrar o que existe sob o asfalto. Além do Masp, o artista já retratou diversos cartões-postais da capital, como: O Parque Ibirapuera acima do Complexo Viário Ayrton Senna; A Estação Pinheiros — do rio ao "centro da Terra" com 40 metros de pé-direito e incontáveis escadas; Estação e Catedral da Sé com sua cripta subterrânea; A gigante Estação da Luz, que conecta diversos espaços urbanos, entre outros (veja galeria abaixo). O projeto, chamado "Ilustrando o Mundo", começou em 2018 como um hobby compartilhado nas redes sociais. Foi apenas neste ano, após a publicação do corte do Masp, que a iniciativa ganhou grande repercussão e transformou a carreira do artista. Segundo ele, o perfil saltou de cerca de 3 mil para quase 30 mil seguidores e milhões de visualizações. Ligação com a infância A relação com o desenho começou cedo na vida de Jardi: "Meu passatempo era desenhar tudo ao meu redor. Pessoas da família, amigos na rua, casas e insetos. Com o tempo e com as viagens, fui me apaixonando pela história e pela dinâmica das cidades. Antes mesmo da faculdade, nasceu a vontade de unir arquitetura e história para entender as camadas de construção do nosso espaço urbano", contou ao g1. Jardi cursou Arquitetura e Urbanismo na Unesp em Bauru, onde foi aprovado em primeiro lugar na prova de aptidão em desenho. "Na época, acabei virando 'professor' de desenho dos meus colegas de sala, enquanto também aprendia demais com eles. Fiz iniciação científica e TCC focados na preservação de áreas urbanas centrais." Depois da graduação, fez especializações no exterior, trabalhou por mais de 15 anos com modelagem 3D e atuou como professor universitário. Mesmo assim, nunca abandonou o desenho. Minha verdadeira paixão sempre foi o desenho livre e a poética da aquarela. Percebi que a aquarela tem uma liberdade única de sobrepor camadas, sem a obrigação da perfeição fria do computador, o que casa perfeitamente com a essência da própria cidade, que também é imperfeita e feita de camadas sobrepostas. Recentemente, decidiu deixar o trabalho em um escritório internacional para se dedicar integralmente ao projeto artístico. "Essa transição tem seus desafios, mas meu objetivo é contribuir para a educação patrimonial e histórica, fazendo com que as pessoas passem a olhar para as cidades por onde caminham com outros olhos." SP em recorte Um raio-X da cidade Antes dos cortes, o perfil reunia ilustrações em perspectiva e comparativos do "antes e depois" das cidades. A mudança veio quando resolveu retomar os cortes técnicos, um antigo interesse seu. A primeira experiência foi justamente com o Masp, um dos ícones arquitetônicos mais queridinhos pelos brasileiros. "Percebi ali que havia um desejo enorme do público por esse tipo de conteúdo. Pensei: 'Por que não unir história, arquitetura e engenharia em aquarelas didáticas, poéticas e acessíveis a qualquer pessoa?' Foi o ponto de virada", revelou. Para ele, o corte técnico permite contar uma história impossível de ser mostrada por fotografias, por exemplo, "porque ele funciona como um verdadeiro 'raio-X' da cidade". "Uma fotografia, um vídeo de drone ou uma ilustração convencional só consegue registrar a superfície ou a fachada, a 'casca' do ambiente urbano. Nem mesmo as ferramentas modernas contam essa história em profundidade." Já o corte, explica ele, permite enxergar o invisível e perceber revelações surpreendentes como o fato de que pode haver um lago sobre a nossa cabeça, um rio histórico canalizado sob os nossos pés e até sepulturas e galerias centenárias do outro lado de uma parede do metrô, como acontece na Estação Clínicas. O corte reconecta as pessoas com a memória viva do lugar onde elas pisam todos os dias. Estação das Clínicas Arquiteto e ilustrador Jardi Oliveira/Arquivo pessoal Pesquisa, observação e licença artística Para Jardi, a definição dos espaços retratados leva em conta a importância histórica, o movimento de pessoas e o papel daquele espaço na cidade. "A escolha do local começa pela relevância do ponto urbano: busco lugares com importância histórica, grande fluxo diário, centralidade ou que sejam pontos de integração de transporte", explicou. Depois disso, o arquiteto conta que dá início à etapa de "arqueologia urbana": "Busco plantas, acervos históricos e cortes do local. Como na maioria das vezes esses documentos técnicos não estão disponíveis, entra em cena o meu olhar de arquiteto. Eu vou ao local, observo a volumetria, os acessos, a topografia e começo a estruturar o corte na forma de croqui." "Para que o desenho cumpra o seu papel de revelar a história de forma didática e poética, eu me dou a liberdade de transpor ou deslocar levemente certos elementos. No corte do Masp, por exemplo, ajustei a posição dos túneis do metrô para permitir que o público visualizasse a relação entre o subsolo do museu, a avenida e o transporte", revelou. "É uma liberdade que uma tecnologia como um scanner 3D a laser não tem. Por isso, faço questão de colocar no Instagram uma nota frisando que as ilustrações têm caráter artístico e não são projetos executivos de engenharia. O meu objetivo principal não é a precisão milimétrica de um desenho técnico, mas sim a didática visual, o impacto estético e o resgate da memória da cidade." Segundo o ilustrador, a arte da Praça da Sé foi o maior desafio: "Como não tive acesso a nenhum documento técnico ou às plantas do subsolo, fiz a reconstrução 'a olho', caminhando diversas vezes pelo local, observando as profundidades, analisando fotografias e o Google Maps". Já o trabalho que mais trouxe aprendizado a ele foi a Estação da Luz. "Foi um processo fascinante conectar a história da São Paulo Railway (de 1867) com a chegada do metrô e a relação direta com equipamentos culturais incríveis ao redor, como a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa. Mas também não tive acesso a nenhum documento técnico, tudo a olho", destacou. E o título de queridinho, é claro, ficou com ele: "O meu xodó é o corte do Masp. É um lugar que amo profundamente, projetado por uma arquiteta que admiro demais, a Lina Bo Bardi. Foi o desenho que virou a chave do perfil e que mais surpreendeu o público, já que muita gente não imaginava a relação do Metrô da Linha 2-Verde passando logo acima dos túneis da Avenida 9 de Julho". Além da capital paulista, Jardi também explora diversos pontos do mundo em suas aquarelas. A lista conta com Torre Eiffel, Torre de Pisa, Museu do Louvre e Torre de Belém (galeria abaixo). Agora, ele pretende ampliar o projeto e embarcar em novas frentes criativas: "Tenho uma fila grande de lugares marcantes aguardando para virar arte. Estou aprofundando pesquisas sobre novos pontos do Centro Histórico, entroncamentos profundos do metrô e da CPTM, e novas abordagens sobre os caminhos dos rios invisíveis da capital. Também estou finalizando um e-book do antes e depois de 15 cidades brasileiras e trabalhando em um outro e-book sobre mundos ocultos da cidade de São Paulo". O mundo em corte Os prédios com arquitetura internacional em São Paulo
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