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    Terra de João Gomes, Serrita preserva tradição e faz da cultura do vaqueiro um estilo de vida

    7 hours ago

    Missa do Vaqueiro de Serrita reúne milhares de pessoas e mantém viva a tradição Os cerca de 20 mil habitantes do município de Serrita, no Sertão de Pernambuco, vivem dia a dia a cultura do vaqueiro. Seja na sede ou na zona rural, a figura dos personagens da vida real que desafiam a caatinga está presente nas casas, nas ruas e é passada de geração em geração. O vaqueiro José Antonio Brigel, conhecido como Zezé de Sirlei, é organizador de uma das pegas de boi mais tradicionais de Serrita. Aos 66 anos, começou a se aventurar na caatinga ainda criança. As marcas da profissão estão no corpo e na alma. 📱:Baixe o app do g1 para ver notícias de Petrolina e Região em tempo real e de graça Dia da Cultura Nordestina: saiba de onde vem a data e conheça algumas tradições “A vida do vaqueiro é a vida mais sofrida de todo vivente. Vaqueiro passa o dia de fome, de sede. Dorme na caatinga quando é preciso. A vida do vaqueiro é puxada”, destaca Zezé. Apesar das dificuldades, a fé é uma marca inabalável de homens, mulheres e crianças que encaram a profissão. “O vaqueiro ele é uma pessoa de fé. Ele tem que acreditar em Deus. A gente sempre participa da missa aqui de vaqueiro, dos eventos que existem de vaqueiro. A gente tem orgulho de estar desse jeito, vestido de couro e pegando boi”, diz Zezé. Zezé de Sirlei, vaqueiro de Serrita Emerson Rocha / g1 Petrolina A fé dos vaqueiros de Serrita é simbolizada há 56 anos na tradicional missa. A celebração é realizada anualmente e tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga: a de Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Em 1963, o Rei do Baião compôs a música “A Morte do Vaqueiro” para lembrar o assassinato do primo. Segundo a lenda, o canto de Raimundo Jacó atraía o gado e a inveja dos colegas de profissão. O fato culminou na morte dele durante uma emboscada. O crime não foi solucionado até hoje. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede. Município de Serrita, capital do vaqueiro Emerson Rocha / g1 Petrolina Sete anos depois do lançamento da canção, Luiz Gonzaga e o poeta Pedro Bandeira idealizaram a cerimônia, que foi celebrada pelo padre João Câncio. A festa, que começou pequena, hoje movimenta toda a região. “A missa do vaqueiro se tornou maior do que Serrita podia imaginar. Ela pertence a nosso nordeste, ao nosso sertão. Todas as cidades aqui ao redor vivem também essa realidade porque movimenta toda a estrutura econômica dos outros municípios”, afirma Carlos Sampaio Peixoto, administrador do Centro Cultural de Serrita. Primeira missa do Vaqueiro realizada em Serrita, em 1970 Emerson Rocha / g1 Petrolina O Centro Cultural foi reinaugurado no dia 3 de julho. No espaço, os visitantes podem ver fotografias e objetos que mostram a evolução da missa e a relação que a cidade tem com os vaqueiros. “A ideia do Centro Cultural é justamente resgatar a nossa história do vaqueiro. Serrita ela é considerada capital nacional do vaqueiro, e não à toa a gente vive no nosso dia a dia a nossa cultura, a cultura do vaqueiro. Ela é contada, ela é preservada e ela é vivida. Mais do que tudo ela é vivida no nosso dia a dia”, diz Peixoto. João Gomes lança o álbum 'Pé de serrita' Divulgação Herdeiro de Luiz Gonzaga e filho ilustre de Serrita, o cantor João Gomes é responsável por manter a cultura da vaquejada viva e em expansão por todo o país. Em 2025 o cantor, voltou para o terreiro da casa da avô e gravou o álbum Pé de Serrita. São 16 músicas que mostram a essência do forró tradicional, música que embala os vaqueiros caatinga a dentro. Galerias Relacionadas De pai pra filho Assim como em outras partes do Nordeste, em Serrita a profissão de vaqueiro é uma tradição familiar. “De pai para filho. Aqui é uma tradição, já vem de raiz. Aqui quem é vaqueiro sempre a família quando morre fica outro. Fica um neto, fica um filho, fica um bisneto, um tataraneto”, descreve Zezé de Sirlei. Vaqueiro de Serrita leva no rosto as marcas da profissão Emerson Rocha / g1 Petrolina Claudier Bezerra de Lavor, de 35 anos, carrega no rosto as marcas do que é ser vaqueiro. “Isso aqui foi o primeiro boi que eu pulei, ali, pulei meio desacertado, aí o cavalo passou por cima, deixou a marca”, diz, explicando os ferimentos adquiridos durante a pega de boi. As aventuras de Claudier na caatinga começaram na adolescência, mas essa é uma rotina com a qual ele convive desde que se entende por gente. “É desde do meu avô, papai é vaqueiro. Aí vai para os filhos, vai para os netos”, diz. “Eu comecei com 14 anos. Meu irmão mais novo começou mais novo que eu, no risco na vida de gado”, completa. Cultura do vaqueiro em Serrita é passada de pai pra filho Emerson Rocha / g1 Petrolina Claudiano é irmão de Claudier. Os dois aprenderam o ofício com o pai, que aprendeu com o avô e hoje passam para os filhos. “Já está no sangue, né? Aí é tradição. Já nasce quase lutando com gado, apartando um bezerro. É arriscado demais, arriscando a vida do cara. Mas não tem jeito não. O cara se quebra, volta, não tem jeito não. Está no sangue”, afirma Claudiano. “Daqui para frente, quero que meus filhos continuem a honrar a vida do pai”, completa Claudier. Moda do vaqueiro Moda do vaqueiro em Serrita Emerson Rocha /g1 Petrolina O couro é o grande aliado dos vaqueiros para se proteger dos espinhos da caatinga. Símbolos da profissão, o chapéu, gibão, perneira, luvas e guarda-peito também ajudam a levar o nome de Serrita para outros lugares, por meio do artesanato. Desde os 14 anos, o artesão Antonio Giovane Lopes transforma o couro em obras de arte. São 19 anos de profissão tendo o vaqueiro como tema central. “Todas as peças são criadas voltadas para o gibão do vaqueiro. Todos os desenhos, todos os arabescos, que é como é conhecido o desenho, é voltado para isso. Cada peça que a gente cria tem essa característica”, destaca Antonio. As peças autorais feitas por Antonio e outros artesãos de Serrita fazem parte de uma grife criada por eles, a Kassóte Couro. O trabalho cheio de detalhes é feito na oficina do couro, que fica na entrada da cidade, próximo ao monumento que retrata o vaqueiro Raimundo Jacó e seu cachorro fiel. “A gente se sente feliz porque quanto mais o trabalho é enaltecido, mais gente vai vir, a questão do turismo vai aumentar, vai trazer toda essa questão. A cidade vai ser mais conhecida também, o vaqueiro vai ser mais conhecido. Tudo isso aí vai virar uma bola de neve boa para que isso se torne cada vez mais conhecido no Brasil”, diz Antonio. A auxiliar administrativo Rosângela Cruz saiu de Serrita quando era criança, em 1989. Sempre que volta à terra natal, a moradora do Tocantins faz questão de levar para casa um pouquinho do Sertão. “Estou retornando esse ano para rever e já parei aqui na entrada de Serrita para adquirir, levar um pouco da lembrança, um pouco das coisas daqui do Sertão para os nossos locais”, diz. No que depender dos artesãos, dos moradores e dos vaqueiros, a tradição do município vai seguir crescendo. “Serrita em geral respira isso aqui, não é? Serrita vive a cultura do vaqueiro diariamente”, afirma Carlos Peixoto. Vídeos: mais assistidos do Sertão de PE
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